Quem quer casar com o algoritmo?
Qualquer empresa pode tornar-se numa organização centrada nos dados e na inteligência artificial.

No início da pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou a sua primeira Disease Outbreak News (DONs) sobre o covid-19, a 5 de janeiro de 2020. Alguns dias mais tarde, a 12 de janeiro, a China partilhou a sequência genética do vírus. Um dia depois, uma equipa de investigação da Moderna, em conjunto com outra do National Institute of Health (NIH) norte-americano, conseguiu finalizar a sequência digital para o mRNA-1273, a vacina da empresa para a covid-19. Vinte e cinco dias depois, a Moderna produzia um lote para utilização no primeiro ensaio clínico do NIH, necessário para concluir a fase um da autorização da Food and Drug Administration (FDA). Seguiram-se as etapas dois e três, até à aprovação final da vacina, menos de 11 meses após o início do processo.

O que permitiu a uma pequena e jovem empresa, fundada em 2010 e com apenas 1500 colaboradores, competir com laboratórios de maior dimensão e capacidade financeira? Stéphane Bancel, o seu CEO, classifica-a como “uma empresa de tecnologia dedicada à biologia”, que se especializou na utilização de uma nova tecnologia que usa o RNA mensageiro (mRNA) para enviar instruções ao corpo para produzir determinadas proteínas que combatem doenças específicas.

Mas uma nova tecnologia precisa de ser testada em vários contextos e aplicações e os resultados experimentais e conhecimentos que vão sendo obtidos devem ficar disponíveis imediatamente para todas as equipas de investigação.

A Moderna tem como base um sistema de informação onde os dados se encontram integrados de forma consistente, independentemente da sua origem na empresa, numa arquitetura que permite o seu acesso fácil pelas várias aplicações. Desta forma, os dados podem ser facilmente recombinados, gerando infinitas possibilidades para os mais variados fins científicos. As aplicações utilizam algoritmos desenvolvidos com base na estrutura existente de dados (ou data lake), que estão preparados e afinados para automatizar as mais variadas funções na empresa, desde a I&D à produção e a toda a cadeia logística de abastecimento.

“Qualquer empresa pode tornar-se numa organização centrada nos dados e na inteligência artificial.”

O objetivo inicial do sistema de informação da Moderna foi industrializar a abordagem aos dados, à business intelligence e à inteligência artificial. Não se pretendia algo em que se olhasse para os dados através do espelho retrovisor, mas sim um sistema que permitisse, em tempo real, efetuar previsões para acrescentar maior velocidade, agilidade, eficiência e capacidade de inovação à empresa. No sistema de informação da Moderna, os dados são processados, de forma sistemática, através de processos de ETL (Extract, Transform and Load), e posteriormente expostos através de API (Application Programming Interfaces), que ficam disponíveis para as equipas de investigação como se se tratassem de equipas de desenvolvimento de software.

Para concluir, e por inspiração no caso de sucesso da Moderna e num contexto de cada vez maior transformação digital, não resulta alterar velhos processos para os tornar mais eficientes. Na era dos dados e da inteligência artificial, é necessária a colaboração das equipas para definir novos processos operativos, baseados na cloud, que consolidem e integrem os vários dados existentes na organização para extrair valor a partir deles. A boa notícia é que não necessita de ser uma start-up tecnológica de Silicon Valley para o conseguir fazer. Com os serviços atualmente disponíveis em ofertas comerciais de cloud qualquer empresa pode tornar-se numa organização centrada nos dados e na inteligência artificial. Basta querer!

Carlos Costa Cruz
Head of Marketing & Partnerships da askblue

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